quinta-feira, 10 de novembro de 2011



Não posso adiar o amor



Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob as montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas 

Não posso adiar este braço 
que é uma arma de dois gumes amor e ódio 

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação 

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa 


(Para Viviane Fernandes Medeiros, que se identificou muito com estas lindas e sábias palavras)

2 comentários:

  1. A sensibilidade da poesia dos autores portugueses é peculiar...
    A beleza da exposição do conflito íntimo do autor com o sentimento de amor, que lhe toma completamente a ponto de não poder ser contido. Em confronto ao ódio por si mesmo, ódio por suas limitações em revelar o amor a ponto de tentar sufocá-lo na garganta. Ódio representado pelo medo do não acolhimento pelo ser amado, e o que lhe poderia acarretar passar por "montanhas cinzentas" e "montanhas cinzentas", dias sem luz, de aclive. A subida da montanha... Acompanhada das trevas da desmotivação... Da perda da própria razão de prosseguir... Não se pode ocultar o amor, indispensáveis a coragem de sua demonstração, porque ele é a razão da própria existência! Não se adia o coração, o que seria deixar de viver!
    A delicadeza da disposição das palavras é de inexplicável beleza. E obviamente não tive a intenção de explicá-las e sim, de em uma de suas facetas demonstrar a reflexão gerada em mim, de tantas outras que certamente haverão.
    Simplesmente maravilhoso. Obrigada pela postagem!

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